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Segredos, histórias mal contadas e vídeo. As revelações sobre os grandes devedores do Novo Banco

Segredos, histórias mal contadas e vídeo. As revelações sobre os grandes devedores do Novo Banco

NOTÍCIAS FINANCEIRAS

Segredos, histórias mal contadas e vídeo. As revelações sobre os grandes devedores do Novo Banco

O Compromisso Portugal em 2004 — movimento de gestores e empresários — e a compra de ações da Portugal Telecom, em parte com crédito do BES, deram à Ongoing um grande protagonismo, sobretudo quando apareceu ao lado de Ricardo Salgado contra a oferta pública de aquisição (OPA) da Sonae. O então amigo de Nuno Vasconcellos, Rafael Mora, já era um poder estabelecido dentro das grandes empresas através da Heidrick and Struggles, a consultora que desenhou modelos de governo (como o do BCP) e políticas de bónus generosas e polémicas para os grandes gestores da época.
Para além de investimentos financeiros na PT, Zon, a Ongoing tinha a ambição de construir um grupo de media. Comprou o Diário Económico em 2008, chegou a ser o segundo maior acionista da Impresa (o que lhe valeu uma guerra com Pinto Balsemão), e apareceu associado a uma tentativa de compra da TVI quando José Sócrates estava no poder.
O grupo ia investindo em conteúdos, tecnologias, sites e outros, ditos, ativos imateriais e contratava figuras mediáticas como José Eduardo Moniz, bem como pessoas que vinham da esfera do poder socialista no tempo de Sócrates. O ex-espião Silva Carvalho foi um dos mais falados, mas também passaram pela Ongoing Guilherme Dray (que foi chefe de gabinete de Mário Lino e José Sócrates e atualmente é consultor do governo de António Costa para as questões laborais e a TAP) e Carlos Costa Pina, ex-secretário de Estado do Tesouro.
Chegados a 2012/2013, a Ongoing tinha um ativo de 1,3 mil milhões de euros, em ações, mas também em terrenos, prédios, armazéns, quintas, afirmou Nuno Vasconcellos na sua audição (que foi interrompida aos 59 minutos pelos deputados), Mas a dívida associada era já da ordem dos mil milhões de euros, assinalou a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua. Aliás, Mortágua foi a única que teve a oportunidade de fazer perguntas ao empresário  — e ao longo da hora que durou a inquirição — repetiu várias vezes a mesma.
“Deve mais de 500 milhões de euros ao Novo Banco. Tenciona pagar? Como?”
Nuno Vasconcellos esteve mais tempo a explicar como resolveu a dívida que teve com o BCP, a quem acusou de má fé por tê-lo executado por um aval pessoal que era suposto perdoar no quadro da reestruturação negociada. Já sobre a dívida para com o BES/Novo Banco pouco mais se ficou a saber, para além da afirmação que fez lembrar outros grandes devedores da banca e que irritou os deputados.
“Vai-me dizer que não tem dívidas….”, atirou Mariana Mortágua. “Quem tem dívidas é a Ongoing e nós demos garantias e amortizamos dívidas, acedemos a todas as solicitações do BCE e do BES”, respondeu Nuno Vasconcellos.Sobre as garantias entregues ao BES (tudo antes de o Novo Banco entrar em cena), o empresário assegurou que as empresas tinham ativos imobiliários, que foram reforçados com bens que eram da família e seus, a saber: Terrenos na Rua Artilharia 1 (centro de Lisboa), prédios no Estoril, casas, empreendimentos em Alcácer do Sal, um armazém em Valejas (Oeiras) — várias vezes referido e que valeria sete a oito milhões de euros — propriedades na Quinta do Peru e uma quinta “lindíssima” no Norte que era do grupo.Quanto ao principal ativo do grupo, Vasconcellos não referiu: as ações na Portugal Telecom estavam penhoradas há muito e os dividendos que chegaram até 2014 (ano em que a aplicação na Rioforte abateu a empresa) já estavam cativos em operações financeiras com vários credores, incluindo o Crédit Suisse.  A Ongoing era ainda acionista da Espírito Santo Internacional e do BES, ações que estavam comprometidas numa opção de venda a um preço fixo à holding detida pela mãe.O grupo recorreu também a outras engenharias para se financiar através da liquidez das empresas na qual tinha posição acionista ou influência. Uma prática muito usada pelo Grupo Espírito Santo, ao arrepio das regras de prevenção de conflitos de interesses. Em 2010, o Fundo de Pensões da PT investiu em fundos geridos pela Ongoing, então sua acionista.E em 2015 o então presidente executivo do Novo Banco, Eduardo Stock da Cunha, conta a surpresa que foi descobrir que 200 milhões de euros da então necessária liquidez do Novo Banco estavam aplicados num produto da BES Vida. Quando tentou levantar descobriu que, na base, estavam fundos que tinham títulos de outros fundos, com sede no Luxemburgo, e cuja base era mais um financiamento à Ongoing.Quando António Ramalho chegou ao banco, em 2016, as perdas com a Ongoing estava já imparizadas. Havia ainda uma tentativa de venda do Diário Económico que correu mal. O processo seguiu a via judicial tradicional. Tentou-se a insolvência pessoal, mas não havia património e pouco ou nada foi recuperado. No caso das empresas havia algum património imobiliário que está a ser executado.O diretor de recuperação de créditos a empresas do banco pouco mais adiantou. Daniel Santos testemunhou que na abordagem inicial, feita em 2014, Nuno Vasconcellos foi “aparentemente colaborativo. Nunca foi daqueles que disse logo ‘não pago, ou não devo’”. Mas não trouxe mais garantias. Depois afastou-se e, por fim, desapareceu.Ora segundo Nuno Vasconcellos, “todos os ativos que eram meus ficaram no BES”, referindo participações em terrenos na zona Expo e na Fundição de Oeiras. E um aval pessoal também ao BES um “mês antes de resolução e por pressão do Banco de Portugal”. Havia património no Brasil (do acionista Nuno Vasconcellos), mas o banco não conseguiu lá chegar, admitiu António Ramalho.Mariana Mortágua também procurou seguir o rasto brasileiro (que aliás se repete em outros grandes devedores como Vieira e Moniz da Maia). Segundo um documento do Novo Banco, as únicas garantias reais estão concentradas numa empresa brasileira chamada Real Time Corporation.“É totalmente falso, a Ongoing tinha uma participação nessa holding, que tem empresas de tecnologia e internet. E que até ia fazer um IPO (oferta em bolsa) no Brasil”, respondeu o empresário. “Todas as garantias reais estão contratualizadas com o Novo Banco. Não tem garantias na Real Time, nem nunca teve”, acrescentou. A deputada acrescentou que a Real Time tem uma dívida de 47 milhões de euros junto do Novo Banco.“Não, na dívida do Novo banco não consta nada disso”, contrapôs Vasconcellos. As contas de 2011 da Ongoing consultadas pelo Observador revelam que o grupo tinha emprestado mais de 50 milhões de euros à empresa no Brasil, que promoveu o Brasil Económico. No Brasil, Nuno Vasconcellos aparece como proprietário e colunista do jornal o Dia, do Rio de Janeiro, que a Ongoing comprou em 2010.As contas na posse dos deputados indicam que a dívida da Ongoing ao Novo Banco passou de 600 milhões para 520 milhões de euros. O Novo Banco tentou vender este crédito num pacote, mas a operação foi travada por falta de parecer da comissão de acompanhamento “desconfortável” perante a natureza imaterial e intangível dos ativos. A Ongoing Strategy Investments foi declarada insolvente em 2016 e as empresas ligadas ao Diário Económico, as únicas que tinham atividade e trabalhadores, foram a seguir. Para além dos bancos e trabalhadores, estas empresas ficaram também com uma dívida de três milhões de euros à Segurança Social e outra de pelo menos 800 mil euros ao fisco.Direito de resposta ao artigo de opinião “Ah, Ah, Ah, podem rir os grandes devedores”Num direito de resposta enviado ao Observador em dezembro, no qual refere os ativos que deu ao BES — as quintas maravilhosas, os terrenos valiosíssimos em Lisboa, os empreendimentos turísticos com campos de golfe — Nuno Vasconcellos diz que fez um acordo com o fisco português para pagar as dívidas das empresas que está a cumprir. E assegura que honrou os compromissos em Portugal “com todos os que aceitaram negociar”. Não foi o caso do Novo Banco. Na audição referiu-se varias vezes ao padrinho do filho, como tendo sido “a pessoa que mais me ajudou”. Isto porque, na altura, “o Novo Banco não quis saber de mais nada, nem quis emprestar mais dinheiro”.


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